Pessoas Invisíveis

Pessoas Invisíveis  é o resultado de um mergulho no universo das histórias em quadrinhos criadas por Will Eisner.

Eisner dispensa apresentações. É o maior gênio do mundo das graphic novels e ponto final. Tendo crescido no Bronx, na parte setentrional de Nova Iorque, na década de 30, uma região tradicionalmente ocupada por operários e imigrantes, é de lá que saiu, em boa parte, o material humano de suas histórias. Mas, de fato, em sua obra, a grande protagonista é a cidade (qualquer local que guarde a essência da cidade grande). Seu olhar agudo sobre a solidão urbana e o patético de nossas vidas cotidianas, aliado ao caráter de “protagonista” que ele imprime à paisagem da cidade – dando a ela respiração, pulsação e memória – foi o que moveu nosso trabalho. 
Personagens ou temas propostos por Eisner em “Contract with God”, “Dropsie Avenue”, “The Building”, “New York – The Big City”, “Will Eisner Reader” e “Spirit” foram os impulsos para a criação de Pessoas Invisíveis.

Desenvolvemos, durante o processo de ensaios, um amplo trabalho de reconstruçãobaseado em temas e roteiros contidos na obra de Eisner ou indicações técnicas e estilísticas utilizadas como pontos de referência pelos atores: a transposição da linguagem das HQs para o teatro, a busca por uma intersecção entre essas linguagens, a valorização da fragmentação das HQs, os personagens se desencontrando de outros pela ação da cidade (trânsito, ruído, balas perdidas), a solidão da metrópole, o choque entre a delicadeza e o vulcão contido nessas vidas anônimas. Nessa perspectiva, o texto nasceu, ao mesmo tempo que o espetáculo, nas palavras e cenas que íamos criando e experimentando imediatamente no corpo e na voz do ator. A reconstrução, é bom frisar, não se apoiou exclusivamente nas HQs de Eisner, mas a partir delas fomos buscando na nossa própria memória e na espontaneidade individuais sub-temas que enriquecessem nosso trabalho. 

O que surgiu daí foi uma dramaturgia que conta pequenos dramas humanos que vão resvalando ou penetrando em outros pequenos mundos individuais, recheados de frustrações, encontros e desencontros. Tomamos o cuidado de evitar as armadilhas de uma imitação realista, embora o ponto de partida de nossa estória fosse muito comum: habitantes de uma grande cidade em momentos de seu cotidiano. Não queríamos personagens que fossem reais. Quisemos criar uma espécie de supra-realidade, dando um amplo painel da vida nos grandes centros urbanos. São pessoas comuns surpreendidas em momentos de rara intensidade. 

Pessoas Invisíveis conta a história de três fantasmas que rondam o edifício onde viveram toda sua vida: Monroe Mensh, um sujeito alheio a tudo e a todos – Antonio Tonatti, um músico frustrado e apaixonado – e Geraldo Shnobble, que possui o insólito dom de voar.  A partir deles, esses mestres na arte da vida urbana, um novelo vai sendo desfiado – recheado de cacos de memórias, personagens risíveis e o movimento da cidade.  
Eisner trabalha com a idéia de que muito do que acontece numa grande cidade é inexplicável e – ao mesmo tempo – mágico. É ele quem diz: “Estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas por lágrimas são mais do que edifícios inertes. É impossível pensar que ao fazerem parte da vida, não tenham absorvido as radiações provenientes da interação humana”. 
O que se vê no palco é “o mundo à nossa volta e o mundo dentro de nós”.

Paulo de Moraes (diretor e co-autor)

Fotos


Críticas

“Tendo como fonte inspiradora a obra do quadrinista norte-americano Will Eisner, o Armazém Companhia de Teatro, com ‘Pessoas Invisíveis’, coloca em cena o seu melhor espetáculo. (...) Como de hábito, Paulo de Moraes – um dos mais talentosos encenadores deste País – imprime à montagem soluções originais, imprevistas e profundamente teatrais.”

Armazém coloca em cena seu melhor espetáculo
Lionel Fischer (crítico de teatro, Tribuna da Imprensa)


“A montagem de Paulo de Moraes intensifica a relação da trama com sua forma, de tal maneira que a cena está sempre referenciada aos aspectos visuais, seja pelo ritmo seqüenciado dos quadrinhos, seja pela interpretação dos atores, desenhados com movimentos e gestos que cristalizam os traços do papel. (...) Os atores demonstram, continuamente, que estão num tom acima do realismo, como se descolassem da linha do desenho para ganhar, em movimentos expandidos, uma supra-realidade que os torna comoventes algumas vezes, patéticos outras, e sempre merecedores de alguma compaixão.”

Dramas anônimos
Macksen Luiz (crítico de teatro,  Jornal do Brasil)


“O resultado tem a característica minimalista dos episódios do gênero em que brilha o inspirador. Como nos quadrinhos a ação é episódica e a caracterização feita com economia, aspectos que bem serviram a direção de Paulo de Moraes e o universo interpretativo do grupo. (...) É gratificante ver um grupo pesquisar com tanta coerência e oferecer um espetáculo tão bom, sabendo dar prazer ao espectador com sua seriedade.”

Teatro com coerência e seriedade
Bárbara Heliodora (crítica de teatro, O Globo)


“Certa feita perguntaram ao veterano quadrinista Will Eisner se ele tinha influência do cinema, já que sua obra demonstrava um senso de movimento que sugeria sequências cinematográficas. Esner surpreendeu na resposta. Disse que não; na verdade, tinha mais influência do teatro, o pai tinha sido cenógrafo.
Pessoas Invisíveis parece ter se dado conta desse potencial cênico nas HQs de Eisner. Hábil na costura desses flashes que Eisner recolhe da metrópole (“Todas as minhas histórias são sobre cidades vivas”, definiu o artista uma vez), ao ponto de fazer parecer que todas advém de um único romance gráfico” (também definição cunhada pelo quadrinista), o diretor Paulo de Moraes se sai bem em sua incursão pelo mundo dos comics.
Equilibrado com maestria entre o drama e o humor, entre o patético e o profundo, a metáfora e a descrição crua, o espetáculo consegue cativar o público com situações universais e simples. É divertido, mas não é escapista. É reflexivo, mas também não é pesado ou moralista. ”

A agilidade dos quadrinhos nos limites do palco
Jotabê Medeiros (crítico de arte, O Estado de São Paulo)


Ficha Técnica

Inspirado na obra de Will Eisner

Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda de Mendonça e Paulo de Moraes

Elenco:
Patrícia Selonk (Antonio Tonatti)
Marcos Martins / Ricardo Martins (Monroe Mensh)
Fabiano Medeiros / Renato Linhares (Geraldo Schnoble)
Simone Mazzer (Cantora de Rua + Zelador)
Sérgio Medeiros (Benny 47 + Charlie)
Simone Vianna / Stela Rabello / Raquel Karro (Goldie)
Marcelo Guerra (Red)

Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri
Figurinos: João Marcelino
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha Sonora: Paulo de Moraes
Projeto Gráfico: Alexandre de Castro
Concepção de Vídeo: Paulo de Moraes
Desenhos para Animação: Alexandre de Castro
Edição de Vídeo: Pedro Asbeg
Edição de Áudio: Paulo Brandão
Fotografias: Mauro Kury e Jorge Etechever
Produção Executiva: Flávia Menezes
Patrocínio: Petrobras
Produção: Armazém Companhia de Teatro