Dias Felizes
Antes mesmo que a primeira palavra seja dita, Dias Felizes já é um corpo no espaço. Uma mulher emergindo da terra, metade presa, metade ainda possível. Enterrada até a cintura – e depois até o pescoço – Winnie encontra em seus pequenos rituais a última linha de defesa contra o colapso. Entre o sino estridente que pontua seu dia como um despertador sem trégua e o sol impiedoso que derrete qualquer noção de tempo, ela se apega ao conteúdo de sua bolsa espaçosa: uma escova de dentes, um batom, um espelho – e, mais ameaçadoramente, um revólver.
Beckett sempre soube que há algo de profundamente comovente em ver alguém insistir — insistir em falar, insistir em pentear os cabelos, insistir em seguir o dia. E insistir em se relacionar com seu companheiro improvável – Willie -, um parceiro passivo da sua decadência, um cúmplice silencioso, um lembrete incômodo de que até a solidão pode ter companhia. E tudo isso com humor, porque o humor em Beckett não é alívio, é vertigem. Não disfarça a angústia, mas a evidencia.
Dias Felizes é uma peça sobre a insistência. E nosso cenário tenta tornar visível essa insistência: o deserto como palco, o horror como textura, a luz como testemunha. Na nossa montagem, a beleza não surge apesar do horror — ela nasce dele. O cenário parte desse princípio. A superfície inclinada, instável, quase desumana, não representa apenas a terra que engole Winnie: ela é um corpo estranho, áspero, um terreno que recusa qualquer promessa de conforto. Ainda assim, é ali, nesse espaço de ruína e desamparo, que procuramos um tipo raro de beleza — aquela que não suaviza o abismo, mas o revela.
A luz de uma espécie de sol impossível, é mais testemunha que outra coisa. não vem iluminar para proteger; ilumina para expor. É uma beleza que queima. Um brilho que denuncia a imobilidade, que embala com violência, que transforma a rotina de Winnie em uma espécie de ritual trágico. Ao mesmo tempo, essa luz cria uma poética própria: uma paisagem onde o horror ganha contornos nítidos e, paradoxalmente, delicados. É a beleza do inevitável, quando a vida continua apesar de tudo.
Assim, o belo emerge onde menos se espera: no gesto pequeno perdido numa vastidão; na presença luminosa dentro do desamparo; na mulher que, soterrada, ainda encontra um modo de dizer “mais um dia”. Nossas vidas são estranhas. E Beckett é uma espécie de espelho quebrado que reflete tudo mostrando muito pouco.
Paulo de Moraes (diretor)
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Críticas
"Reside aí, no trabalho da atriz, uma das razões maiores para ir ver a peça. Trata-se de um grande desempenho, corajoso e resoluto. A interpretação dos textos de Beckett configura um desafio sério para os atores. A partir do realismo, é preciso ir adiante, escapar de formas estilizadas de interpretação, embarcar em atos precisos de percepção, capazes de envolver a realidade dos objetos numa crença imaginativa. Uma espécie de teatralidade sem teatro – ou vice-versa. Patrícia Selonk atinge este padrão com naturalidade, consegue reverberar as sutilezas irônicas do texto, lida com o seu fino humor com elegância e com as tensões latentes nas falas com extrema desenvoltura. (...) De resto, vale felicitar a Armazém Companhia de Teatro por este presente valioso para os amantes de teatro. Se os grandes textos teatrais, clássicos ou contemporâneos, têm se tornado uma ausência lamentável na cena carioca, a coragem de encenar um Beckett – e um Beckett de extrema densidade – merece mais do que a gratidão do público. O fato é para comemorar, comemorar muito. Portanto, você que acredita na força do teatro para alimentar a vida, não deixe de ver, vale a pena correr até o teatro do Armazém para se deliciar com um acontecimento teatral de rara beleza."
Beckett, o teatro e a invenção do ser
Tania Brandão, Folias Teatrais
" (...) A partir de uma acurada tradução de Jopa Moraes, com sutis mas oportunas atualizações textuais, transmutando a original climatização narrativa no entorno de uma época muito próxima à eclosão da ameaça nuclear pelo risco, hoje cada vez mais ascendente, de uma catástrofe ambiental. (...) E visceralmente interpretada por uma extasiada Patrícia Selonk como Winnie, capaz de saber transitar sob compasso ritualista, em convicta expressão psicofísica, vocal e gestual, entre as frustradas sensações de uma mulher desiludida e solitária e a esperança de que aquele possa, afinal, ser ainda um dia feliz. Manipulando objetos de maquiagem retirados de uma bolsa, ao aprontar-se para uma saída sem saber o porquê ou para onde. (...) A vigorosa transposição cênica imprimida por Paulo Moraes tornando mais avassaladora a “intuição do absurdo”, assim configurada pelo próprio Beckett ao definir a peça, enquanto a investigativa decifração do enigma proposto provoca, questiona, faz refletir, irradiando-se na cumplicidade da plateia ao sugestionar, do riso ao drama, um “dia feliz’para quem realmente gosta de Teatro com T maiúsculo."
Incisiva Concepção sob a Estética Apocalíptica de Beckett
Wagner Correa de Araújo, Escrituras Cênicas
"(...) Beckett nos lança flechas envenenadas, ele diz, sem dizer, que está se referindo a nós todos/ estes caminhadores de um sistema político-econômico em desfazimento terminal, alguém duvida disto? Afinal não é benfazeja a ilusão como trava aos olhos da carantonha na que estamos equilibrados tangendo ilusões para ninar as crianças que insistimos em ser, vez mais a insistência, pedregoso paradigma! Sim, sim, também nós que assistimos, alarmados com a ausência de saídas e escapadelas, estamos a esta zona cinza circunscrita pela rubrica mencionada há pouco – espécie de deserto sem hora nem lugar no que a vertigem precipita, a um só tempo, o desalojo e a paralisia.
É que na montagem pontual perfeita e precisa de Paulo de Moraes nos presenciamos (todos) estáticos, grudados às ‘cadeiras-de-forca’, tragados para os interiores da cena na espera-expectativa do espaço-outro que se esticasse até o proscênio, destemperando tudo, a dobra das horas em vigor e fato, a desmontagem a desprega desde a sineta em anúncio de um sursis, a vaga vertiginosa na que coubesse o corpo que cai e se levanta voraz, um coeficiente de saúde mais além do sufocamento.
Paulo de Moraes nos instiga em convite e convocatória ao desequilíbrio e ao desassossego impresso pelo enredo beckettiano. Nós estamos aí, todo-ouvidos, todo-olhos, a tensão arrastada nas veias do pescoço, solidários em companhia a eles10, Winnie e Willie, que agonizam de um martírio lento e estendido, um dia outro dia, sempre o mesmo dia ainda que outro, a sineta como sintoma de passagem (Ouve? Houve?), mas nada é o que redime, nada é o que salvaguarda. Houvesse ao menos o grito, um grito agudo ácido aterrador, seria uma forma de reação abrupta, seria o dia seguinte que não cabe ao blocado dos dias felizes, não mais o velho estilo ressurgido das cinzas, mas sim um modo de escandir o tempo em partes distintas que se comunicam, mas não, nada, o presente é o toldo do tempo, sua totalidade sustada."
Dias Felizes, ainda
André Queiroz, A Nova Democracia
Ficha Técnica
Texto: Samuel Beckett
Direção: Paulo de Moraes
Elenco:
Patrícia Selonk (Winnie)
Isabel Pacheco, Felipe Bustamante e Jopa Moraes (Willie)
Tradução: Jopa Moraes
Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Carol Lobato
Música Original: Ricco Viana
Videografismo: João Gabriel Monteiro e Paulo de Moraes
Designer Gráfico: Jopa Moraes
Colaboração Artística: Lorena Lima
Fotografias e Vídeos: João Gabriel Monteiro
Pedras Cenográficas: Alex Grilli
Adereço Sombrinha: Paulo Denizot
Assessoria em Videografismo: Rico Vilarouca
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Produção: Armazém Companhia de Teatro
Turnê
Rio de Janeiro
Belo Horizonte
Porto Alegre