Antes da Coisa Toda Começar

O espectro de um ator abre a cena. Solitário e enclausurado em si mesmo, começa a materializar suas lembranças corporificando a memória. A partir daí a coisa toda começa, ou recomeça. Dessa corporificação, surgem três personagens que espelham as facetas desse espectro. São aspectos de uma mesma vida, estações, fractais, alegorias, cacos de espelhos colados do jeito que deu. O espectro não é mais um, inteiro, inquebrantável. É três, agora. Três personagens atravessando processos distintos, entre os impasses da vida e os impasses da morte, seguindo na tentativa de não se acomodarem diante das regras do mundo.

As três histórias correm paralelas, independentes. As conexões são todas realizadas no campo da subjetividade. Ao espectador é reservado o papel de desenvolver essas conexões pelos estímulos sensoriais que a montagem oferece. Numa narrativa cênica fragmentária, as personagens trafegam entre o passado, o presente e o futuro com desenvoltura e lucidez. Parecem afirmar que o tempo só pode ser dividido através da lógica. No campo das emoções e sentimentos essa divisão seria praticamente impossível de ser realizada, uma verdadeira utopia da razão.

Antes da Coisa Toda Começar surge como resposta à angústia da criação. A arte de gerar arte quando tudo parece estranho e cruel. E aqui, entre os escombros de nossa angustia criativa cantamos a potencia das primeiras sensações, o júbilo de sentir-se imortal, a capacidade de enxergar o real no irreal; de sacar quando se perde o pé, mas se encontra a estrada; de perceber que somos donos de nossa vontade voraz; enfim que antes da coisa toda começar sempre há a excitação de ser despudoradamente humano.

Antes da Coisa Toda Começar é uma espécie de celebração do teatro como caixa espelhada onde os reflexos humanos se multiplicam. Uma celebração que joga luz sobre o instante em que a morte se aproxima dos homens, aquele instante em que a vida ganha novas proporções, respira mais ar e adquire sentidos mais amplos.
Diante da morte a vida ganha força. Diante do silêncio a música avança. Diante da apatia o corpo dança. E é exatamente nesse instante que tudo começa.

Paulo de Moraes (diretor e co-autor)

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Críticas

" (...) Com relação ao espetáculo, este talvez seja o mais belo e inquietante da atual temporada. Sendo Paulo de Moraes um encenador de exceção, nada mais natural que crie soluções tão criativas como imprevistas, frutos de uma imaginação que parece não ter limites. E nenhuma delas, cumpre registrar, ocorre de forma gratuita, como pueril reafirmação de um talento já há muito comprovado. Pelo contrário: todas as marcações, as pausas, a exploração das muitas alterações cenográficas, o universo gestual, os tempos rítmicos, a forma como os atores proferem o texto, enfim, tudo ocorre no sentido de conferir unidade a algo que, supostamente, deveria prescindir dela. Mas, como todos sabemos, uma das missões mais difíceis para um artista é organizar o caos. E neste quesito, Paulo de Moraes é um mestre.

No que se refere ao elenco, mais uma vez os atores da Armazém Companhia de Teatro imprimem sua marca registrada: vastos recursos expressivos, total entendimento do que estão realizando e uma notável capacidade de entrega. Assim, seria de certa forma injusto destacar uma ou mais atuações. Mas como a injustiça é inerente ao humano, torna-se impossível para mim não destacar as performances de Patrícia Selonk e Simone Mazzer, ainda que as demais também mereçam incontidos aplausos. Mas ver Patrícia e Simone em cena constitui, para mim, um privilégio difícil de ser descrito com palavras. A ambas, portanto, agradeço mais esta oportunidade que me proporcionaram de sair do teatro muito mais enriquecido do que quando nele entrei."

Náufragos de si mesmos
Lionel Fischer (crítico de teatro, blog Lionel Fischer)

 

"O espetáculo posto em risco. "Antes da Coisa Toda Começar", da Armazém Cia. de Teatro, é um corajoso mergulho na indefinição das formas teatrais contemporâneas. Sem facilitar a recepção, impacta com a matéria cênica em bruto, carregada de sons e desempenhos.

O ponto de partida é a suposição de que o espectro de um ser humano -ex-ator, personagem ou emanação- esteja em luta com seus próprios fantasmas. Estes configuram identidades prosaicas com arcos de ação que se desenvolvem em paralelo, mas tendo em comum a hipótese de uma imaginação atormentada estilhaçando-se em fragmentos de sentido.Para efetivar essa ciranda de encarnações fugidias, a utilização de canções e a pontuação musical constante são uma opção feliz. Todo elenco reveza-se para sustentar um denso pano de fundo sonoro, articulado pela sutil direção musical de Ricco Viana.

Outro aspecto decisivo é a cenografia do próprio Paulo Moraes e de Carla Berri, que configura um jogo fascinante de paredes móveis, ora armando um espaço de confinamento, ora expandindo-se e acolhendo a projeção de imagens de forma orgânica.

Poucos adereços engenhosos servem ainda aos fiapos de ficção remanescentes. Este aparato cênico seria inútil não fosse o extraordinário desempenho dos intérpretes. A começar por Ricardo Martins, compondo a difícil e imaterial figura do espectro e dobrando em um vibrante travesti.

Thales Coutinho, como o ator em crise, é pungente, e a sempre ótima Patrícia Selonk fulgura como uma adolescente inflamada de desejos. O maior destaque é Rosana Stavis, que se confirma como uma das grandes atrizes brasileiras no momento ao cantar alguns rascantes números musicais com a energia de uma diva. Camila Nhary, Simone Viana e Marcelo Guerra, assumindo vários papéis, completam o quadro de excelência das interpretações. "Antes da Coisa Toda Começar" é uma travessia no abismo da crise da representação dramática. Sem pretender redenções, procura trilhas possíveis para continuar narrando algo. Ainda que seja o irredutível embate entre o vivo e o morto."

Espetáculo atravessa abismo da crise da representação teatral
Luiz Fernando Ramos (crítico de teatro, Folha de São Paulo)

 

"Por onde começar? – um dia perguntou-se Roland Barthes, tentando indicar aos jovens que iniciam uma pesquisa possíveis percursos a serem trilhados. Ao longo do texto ele distribui preciosas dicas para ajudar novatos a não sucumbir às muitas e muitas tentações – quase inevitáveis, nestes casos – quando se quer abraçar o mundo com as mãos. Nos jovens, ambição e descontrole costumam ser desmesurados.

Antes da coisa toda começar não é uma pesquisa de linguagem, embora tenha demandado à Cia. Armazém longos laboratórios de investigação – o que é, de saída, a proposta de não dormir sobre os louros conquistados. Esta nova criação está organizada em torno das possibilidades existenciais abertas à vida de três jovens que se interrogam sobre seus limites. A dramaturgia leva a co-assinatura de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, dupla que já testou suas possibilidades de escritura conjunta em ocasiões anteriores. O que confere ao trabalho – uma estruturação de ações criada em colaboração improvisacional com o elenco – o feitio de coisa de palco; ou seja, um desapego à noção corrente de texto e um investimento rente à cena, um apoio de palavras que, medidas e meditadas, não é simples compilação.

Isso não quer dizer que o texto seja menos eficiente; ao contrário, visa destacar que não detêm cacoetes, deslizes, elucubrações ou tempos mortos; que esbanja desenvoltura e sabe extrair das sonoridades alguns momentos de poesia. Texto e encenação, nascidos juntos, constituem um produto cênico orgânico – como todo teatro deveria ser, aliás.

Afinal, do que se trata? São três histórias, três personagens centrais: um ator em crise, uma cantora que tentou o suicídio e uma garota apaixonada. Nada há de muito extraordinário nelas, a não ser o fato de que cada qual, a seu modo, está começando, preste a começar ou a recomeçar alguma coisa, no limite entre morrer e voltar a viver. Ou seja, Eros e Thanatos deambulam pela cena como sombras inspiradoras, bem como Apolo e Dioniso, extremos simbólicos reconhecíveis não apenas nas situações criadas como, especialmente, nos pontos distais onde cada uma das personagens toca em algum momento de sua trajetória.

Antes que adentrem o palco, este é ocupado por um ator que, em seu desamparo, se pergunta pelo teatro perdido, pela ficção que já não mais existe, pelo mistério que significa encarnar uma personagem. Hamlet meio ridículo, Édipo meio capenga, este ator é, como as demais criaturas, também um arquétipo e um paradoxo que interroga o público não apenas sobre a arte de representar como, em igual medida, a arte de viver a vida. Não como ela é (aquele naturalismo às vezes sórdido que torna tudo chato e rasteiro), mas como deveria ser (ah! os sonhos, que belas quimeras nascem de suas entranhas…). Fecha-se assim o círculo da proposição: por onde começar? Pelo teatro, ora pois.

E o teatro praticado pela Armazém – Paulo de Moraes à frente – é decididamente teatralista, dilatado, pletora de signos que nunca são simples ou unívocos. Se as três personagens nada possuem de extraordinário o mesmo não se pode dizer do contexto onde vicejam: uma cenografia surpreendente, uma iluminação de raro apuro sensual, um jogo cênico que é surpresa constante e cujas modulações visam desestabilizar as certezas do espectador. É na cena, portanto, que a espessura vivencial das criaturas nasce, é adubada e onde as metáforas se materializam para ganharem força e significação.

Eis um exemplo: Léa é a cantora que tentou se matar e agora amarga, na maior parte de suas cenas, a convalescença num hospital. Frustrada, melancólica, oscilando entre os impulsos de viver e morrer, ela se interroga sobre o significado de sua existência. No auge de uma dessas passagens ela canta – quase estridente, em seu limite, I am the Walrus.

A letra evoca monstros e alude a Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (uma das montagens da Armazém), donde seu viés nonsense e espalhafatoso. E Léa, como qualquer outro ser humano, também deseja uma viagem que seja mágica e repleta de felicidade, um país coalhado de maravilhas. A cena nasce, portanto, do entrelaçamento destas muitas superposições. Símbolo grotesco, imagem de horror, fundo de espelho invertido, são várias as conotações possíveis de serem aqui surpreendidas, num instante em que, primando por refinado sentido de teatralidade, ela se imposta como metadiscurso de si mesma, ranhura performática sangrando sobre a pele que recobre corpo e consciência. Vivida por Simone Mazzer no auge de sua aparição no espetáculo, a cena não poderia ser interpretada por nenhuma outra pessoa, dadas as íntimas conexões existentes entre criadora e criatura, artista que vem há anos dando o melhor de si às montagens da Armazém.

Esta, assim como outras passagens, jogam o espetáculo num abismo – naquele sentido de crise entre o real e o irreal, o vivido e o desejado, o sujeito do discurso e o sujeito do desejo, através de formas circulares que vão e voltam, rateiam e engrenam, insistindo de algum modo nos temas nietzscheanos desencadeados em torno de Zaratustra.

Este íntimo liame entre a existência de cada um dos intérpretes e as personagens que fazem circular torna Antes da coisa toda começar um espetáculo de generosas proporções, vincado por inusitada conexão entre teatro e vida, ali onde o projeto, a vontade, a falha, a desistência borbulham num espaço indiferenciado.

A Armazém não seguiu as recomendações de Barthes. Embebedou-se com suas pulsões, recusou as fórmulas, os achados, para mergulhar no fundo do espelho de si mesma. Certa apenas de que a vida, antes da coisa toda começar, deve ser invenção."

Por onde começar
Edélcio Mostaço (crítico de teatro, Revista Eletrônica Questão de Crítica


Ficha Técnica

Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes

Elenco:
Ricardo Martins (Espectro)
Patrícia Selonk (Zoé)
Simone Mazzer / Rosana Stavis (Léa)
Thales Coutinho / Paulo de Moraes (Theo)
Marcelo Guerra (Irmão de Zoé)
Simone Vianna / Karla Tenório (Enfermeira)
Verônica Rocha / Camila Nhary (Irmã de Léa)
Ricco Viana (Maestro)

Direção Musical: Ricco Viana
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Rita Murtinho
Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri
Vídeografismo: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Projeto Gráfico: Alexandre de Castro
Fotografias: Mauro Kury e Cacá Bernardes
Assessoria de Imprensa: Mônica Riani
Assistente de Produção: Fernanda Camargo
Produção Executiva: Flávia Menezes
Patrocínio: Petrobras
Produção: Armazém Companhia de Teatro