Inútil a Chuva

O barco risca o lago. Quatro figuras remam. Remam sem lembrar muito bem porque remam. Sofrem de uma estranha forma de amnésia, que atinge o coração, mas poupa os músculos. Esses – os músculos – ainda carregam a memória de centenas de remadas. Sobre as cabeças desses remadores – como um céu de constelações duvidosas, que confunde marinheiros incautos – paira uma ausência radical. A essa ausência relegamos o papel do protagonista. Nosso caixeiro-viajante sai de cena antes mesmo da peça começar. Sem se despedir, deixa esposa e três filhos e em suas bocas o gosto esquisito da falta de compreensão. Para se livrar desse gosto, eles falam aos montes – como se cuspir as palavras pudesse levar embora o fantasma que mora em suas línguas.
           
Além das dúvidas e incertezas, o sujeito deixa também um monte de pinturas, o trabalho de uma vida. Na estrutura da dramaturgia, esses quadros transbordam – inevitavelmente – por todas as cenas, como se as imagens que ele retratou se materializassem agora como acontecimento. Como se a arte antecipasse a vida. Conceitual ou imageticamente, a obra-imaginada colore paisagens, escapa por brechas do texto, propõe reflexões acerca da natureza do tempo e dá contornos urgentes a situações corriqueiras. Através da sua criação, nosso protagonista ausente (e por isso mesmo inalcançável) nos conduz a olhar de perto sua excêntrica família, uma jornalista que escreve sobre ele e seu ex-melhor amigo. Encontramos a todos cinco anos após o sumiço repentino do pintor e patriarca – e seguimos tocando nos mundos individuais desses que ficaram. É o tipo de história que parece falar  sobre a vida que passa. Mas estamos colhendo esses personagens todos num momento de intensidade e de rompimento muito grandes.

Influenciados pela pintura de Ushio Shinohara, pela narrativa fincada na quebra do tempo feita pelo cineasta Richard Linklater, pela prosa cômica e amarga de David Foster Wallace, tudo em INÚTIL A CHUVA acontece num verão. Aquele momento em que os dias são mais longos, em que as pessoas levam as cadeiras até as varandas e precisam buscar assunto umas com as outras. E aí acontecem os encontros. A presença do outro é o que completa a vida.

A imagem inicial, o barco riscando o lago, diz muito sobre a base da montagem. A situação – física e emocional – é de um equilíbrio precário. O que fazer com um barco que ameaça afundar em vários tempos e momentos e não afunda? O que fazer com os furos que cada membro da família traz em si, furos capazes de elevar o barco ao peso das baleias? Talvez esmurrar a frieza das tintas até elas ficarem prontas para aquecer o coração daqueles que conseguem rir de si mesmos. Ou deixar o barco tão leve, independente dos furos, que chegue ao ponto de apaziguar a chama de uma vela. Tudo acontecendo lá onde as coisas aparecem do nada para um lugar de suma importância. A margem além da água.

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