Esperando Godot

“Não desespere – um dos ladrões foi salvo; não seja presunçoso – um dos ladrões foi condenado.”

É assim, como uma antítese – que caminha ESPERANDO GODOT, a obra prima de Samuel Beckett. Definido genericamente como ‘tragicomédia’, no texto – por mais sombrio que seja o efeito que Estragon e Vladimir produzam – o modo não é trágico.

Suas cores mais sombrias estão sempre presentes, mas um humor desleixado e contínuo mantém esse sombrio esmaecido. Enquanto esperam Godot perto de uma árvore numa estrada deserta -, Didi e Gogo, os modernos heróis de Beckett inventam atos, jogos, palavras, para tentar dar um certo sentido a vida. Conseguem? Beckett responde: pergunte aos personagens.

Sem ter mais o que fazer, os dois mendigos sofrem porque estão vivos, sofrem porque não conseguem se livrar da vida, mas mais que isso sofrem porque são incapazes de falar com propriedade sobre seu próprio sofrimento. Beckett quer destruir a filosofia, quer anular a palavra. Se em ‘Hamlet’, Shakespeare transforma o senso filosófico de seu herói em poesia pura, Beckett arranca de seus personagens até a poesia, mas mesmo assim eles não conseguem parar de falar. E, a partir de uma linguagem propositalmente pobre, o que resulta do tom prosaico e aparentemente canhestro dos personagens é uma poesia e tanto. Por mais que o irlandês pessimista tenha negado a palavra, foi somente através dela que ele conseguiu dizer o que precisava dizer. Ou, desdizer.

Beckett se negava a explicar sua obra prima. Quando lhe perguntaram qual é afinal, o significado de Esperando Godot, ele foi categórico: se eu soubesse, teria escrito na peça. O que fez, então, foi construir personagens com uma memória feita de cacos tão pequenos e distantes que a simples evocação de um passado remoto irrita, fere, maltrata. E condenou-os a um presente concreto, sem nuances, mas que precisa ser vivido como lhes é dado. Eles tentam outra e outra vez... Um dia, outro dia... Tédio, desesperança, jogos, ações... As cabeças deles não param, mas os corpos estão cansados... Beckett quer atingir nossa presunçosa vontade de viver.

Apesar da parábola dos dois ladrões, a salvação é dificilmente uma opção para Didi e Gogo. Mas, mesmo com tudo isso, o modo não é trágico?

É possível rir disto? É.

Porque o tempero de Beckett é primoroso, porque a matéria prima com a qual trabalha é “escavatória, imersiva, uma contração do espírito, uma descida”.

E o homem é risível.


Paulo de Moraes

Fotos


Ficha técnica

Elenco

Simone Mazzer: Vladimir
Patrícia Selonk: Estragon
Paulo de Moraes: Pozzo
Thales Coutinho: Lucky
Simone Vianna: Menino

Texto de Samuel Beckett
Direção: Paulo de Moraes
Tradução: Maurício Arruda Mendonça
Música: Arrigo Barnabé
Desenhos de Figurino: João Marcelino
Cenografia: Gelson Amaral e Paulo de Moraes
Iluminação: Paulo de Moraes
Designer Gráfico: Alexandre de Castro
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção: Armazém Cia. de Teatro
Patrocínio: PETROBRAS