Mãe coragem e seus Filhos

Quando aceitei o convite - feito por Louise Cardoso - para dirigir “Mãe Coragem e seus Filhos”, a obra-prima de Bertolt Brecht, a primeira medida foi trazer junto comigo o Armazém Companhia de Teatro (grupo que dirijo e ajudei a formar há 20 anos) e me cercar também de um núcleo de parceiros criadores (Maneco, Carlinha, Rita, Maurício, além do novo companheiro Alexandre Elias), com os quais já vinha desenvolvendo um trabalho. Havia na montagem um grande desafio a ser vencido, já que Brecht é uma figura emblemática do teatro contemporâneo e muito da linguagem desenvolvida pela nossa companhia nesses 20 anos tinha a ver com o estudo de sua obra. Somos filhos de Brecht, no sentido de buscar uma nova maneira de estabelecer uma comunicação, no sentido de ir atrás de uma poética cênica que dê conta de certa complexidade temática, no sentido de acreditar no poder transformador do teatro.  Mesmo assim, ainda não tínhamos montado um de seus textos.
Sobre ele e sua obra já foram levantados estudos de formas as mais diversas. Há detratores e defensores apaixonados. Mas não se pode negar a importância absurda de seu teatro para o que vem sendo desenvolvido na cena de hoje. O efeito mais complexo que sua obra poderia causar talvez fosse exatamente esse: manter-se vivo enquanto discussão e não eternizado como verdade.
Em “Mãe Coragem e seus Filhos”, Brecht está em seu melhor momento como dramaturgo, justamente porque encontra uma ação dramática clara: Ana Fierling, uma vendedora ambulante determinada e oportunista, e seus três filhos empurram sua carroça no meio de uma guerra santa que parece não ter fim. E, a partir dessa ação dramática, Brecht faz com que vejamos, na própria ação, o que resulta dessa ação. Ou seja, não é mais teoria, é vida pulsando. Seu texto nos dá o chão firme e nos tira o chão. Fazendo política, na acepção mais plena da palavra, consegue atingir o que há de mais humano em personagens perturbadores. Suas palavras são provocadoras, nos levam em busca de um sentido mais amplo.
Colocados os personagens em situação tão extrema – a guerra –, as contradições do que é humano vão aparecendo de forma latente, no conflito constante entre as ilusões e os instintos, na oscilação entre o afeto e o comércio. Às vezes tão duros, às vezes tão generosos, mas reais. Brecht não cai na armadilha de tomar partido de seus personagens, mas acredita que precisamos da Mãe Coragem para nos olharmos a nós mesmos, e que o barulho de um tambor e uma menina muda podem falar a favor da vida.
Também não cai na armadilha de que as coisas têm de ser de outro modo. Faz com que enxerguemos o sofrimento, mas também que ele pode ser evitado. Ativa nossa percepção para o sofrimento que nos esmaga, mas dá a deixa de que ele também não precisa necessariamente nos esmagar. Parece dizer: veja o que acontece a essas pessoas e reflita sobre isso (O que estão fazendo? O que isso está causando a eles?).
Brecht foi também um grande e controverso teórico. Cunhou termos importantes pra falar de seu próprio teatro. Tentamos uma aproximação com esses termos ou palavras (‘teatro épico’, ‘distanciamento’, ‘teatro didático’, etc.) usando-os nas suas acepções mais simples, na língua de todos os dias. Ou seja, tentamos meio que um significado feito em casa.
Havia nos séculos passados, na Europa, uma coisa muito curiosa, chamada de Teatro Anatômico. Em arquibancadas apertadas, se misturavam um punhado de espectadores curiosos, atraídos pelo mistério fascinante de ver um homem aberto. Era somente um cirurgião e um homem sendo aberto. A revelação dos órgãos de um e da meticulosidade do trabalho do outro. Não tenho a menor idéia se o grande alemão tinha algum interesse nisso, mas acho que no teatro de Brecht, o ator tem que ser esses dois sujeitos: o corpo aberto e o cirurgião preciso que o abre; os dois num só. O fato de agir como o personagem a partir de uma estrutura tão fragmentada, cantando, tocando instrumentos, avaliando criticamente ações, exige do ator uma presença onde o movimento não desqualifica o pensamento organizado, onde o pensamento organizado não desqualifica e nem enclausura a fantasia. E isso pede uma sensibilidade específica, porque uma ação é um movimento do pensamento que se torna visível. Tomara que com isso, sejamos didáticos e transgressores. De qualquer forma, uma coisa é certa: a montagem de “Mãe Coragem e seus Filhos” nos ensinou a perguntar melhor.

 

PS - Quando a gente iniciou os ensaios, li uma notícia sobre um sítio arqueológico recentemente descoberto na Alemanha, uma cova coletiva, onde se misturavam soldados católicos e protestantes, mortos durantes os combates da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), conflito do qual Brecht se serviu pra escrever “Mãe Coragem e seus Filhos”. A figura da arqueóloga tornou-se nossa narradora, desenterrando a história que contamos no palco.
Paulo de Moraes (dezembro de 2007)

Fotos


Ficha técnica

Elenco:
Simone Mazzer
Patrícia Selonk
Thales Coutinho
Sérgio Medeiros
Marcelo Guerra
Ricardo Martins
Verônica Rocha
Simone Vianna
Isabel Pacheco
Raquel Karro

Músicos: Ricco Viana e Leandro Muniz
Texto: Bertolt Brecht
Direção: Paulo de Moraes
Tradução: Maurício Arruda Mendonça
Música Original: Paul Dessau
Tradução das letras das músicas: José Rubens Chachá
Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri
Figurinos: Rita Murtinho
Iluminação: Maneco Quinderé
Direção musical: Alexandre Elias
Trilha Sonora Pesquisada: Paulo de Moraes
Fotos: Mauro Kury e Guga Melgar
Produção Executiva: Flávia Menezes e Joana D’Arc Costa
Produção: Armazém Companhia de Teatro
Realização: Louise Cardoso Produções Artísticas