Inveja dos Anjos

“Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.”
Rainer Maria Rilke

Quando Inveja dos Anjos começa, temos uma trinca de amigos discutindo suas memórias, discutindo sobre a importância da palavra escrita, sobre a concretude da palavra. A idéia é que a palavra é viva e isso expande seu poder tanto para o belo quanto para o terrível. Então - defende um deles -, é preciso colocar no papel tudo de ruim que nos incomoda, queimar, fazer uma grande fogueira do lodo pessoal e esperar pelo apagamento daquilo que não nos interessa. Vai saber...
A partir daí, o passado vai se materializando em cena, na forma de afetos perdidos ou a serem descobertos. E é sobre esse campo de afetos que o Armazém se debruçou para a construção de seu novo espetáculo. Depois de duas montagem – muito bem sucedidas – a partir de grandes nomes da dramaturgia (Bertolt Brecht e Nelson Rodrigues), a companhia volta ao seu projeto original: a construção do espetáculo a partir de uma pesquisa temática e formal.
Aqui, personagens e espaço cênico foram nascendo ao mesmo tempo. Os conflitos iam sendo descobertos como palavra e já materializados como cena, como ação. Ou vice-versa. As vigas de aço do cenário, um trecho de ferrovia que corta todo o espaço de representação, se tornaram uma síntese segura pra que a gente pudesse contar nossas histórias cheias de contradições, desesperos e epifanias. Como se a forma fosse conteúdo e o conteúdo fosse forma, a idéia em Inveja dos Anjos é que a dramaturgia e a cenografia instiguem o espectador a ‘editar’ enquadramentos, como se estivesse dentro de um dos vagões do trem e, pelas pequenas janelas, pudesse acompanhar um pedaço do filme da vida - que passa ligeira a sua frente.
Paulo de Moraes

Fotos

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Ficha técnica

Elenco:
Marcelo Guerra (Eleazar)
Patrícia Selonk (Cecília)
Ricardo Martins (Tomás)
Simone Mazzer (Luísa)
Simone Vianna (Branca)
Thales Coutinho (Rocco/homem sem braço)
Verônica Rocha (Natália)

Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Rita Murtinho
Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri
Trilha Sonora (Composição e Pesquisa): Ricco Viana
Projeto Gráfico: Alexandre de Castro
Fotografias: Mauro Kury
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção: Armazém Companhia de Teatro
Patrocínio: Petrobras